Nem todas as infecções sexualmente transmissíveis são identificadas por exames de sangue. Entenda quais testes podem ser necessários, quando realizá-los e por que a escolha depende das práticas sexuais de cada pessoa.
Depois de uma relação sexual sem preservativo, do diagnóstico de uma IST em uma parceria ou simplesmente durante uma avaliação de rotina, é comum surgir a dúvida: quais exames devo fazer para saber se tenho alguma infecção sexualmente transmissível?
A resposta depende de alguns fatores, como o tempo desde a última exposição, a presença de sintomas, as práticas sexuais e o histórico de vacinação.
Um ponto importante é que não existe um único exame capaz de identificar todas as ISTs. Além disso, algumas infecções podem estar presentes mesmo quando a pessoa não apresenta nenhum sintoma.
Por isso, a investigação deve ser individualizada.
Quais são os principais exames para ISTs?
As ISTs podem ser investigadas por diferentes métodos, incluindo exames de sangue, urina e coleta de material de regiões específicas do corpo.
Exames de sangue
Os exames de sangue são utilizados principalmente para investigar:
- HIV: por meio de testes que identificam anticorpos e, dependendo do método, também o antígeno p24 do vírus.
- Sífilis: existem dois grupos principais de exames. Os testes treponêmicos, como os testes rápidos e o FTA-ABS, identificam anticorpos específicos contra a bactéria causadora da sífilis e podem permanecer positivos por muitos anos, mesmo após o tratamento. Já os testes não treponêmicos, como o VDRL, fornecem resultados em títulos que ajudam a avaliar a atividade da doença e acompanhar a resposta ao tratamento. A interpretação dos dois tipos de exame deve considerar o histórico clínico e tratamentos anteriores.
- Hepatite B: por meio de marcadores como HBsAg, anti-HBs e anti-HBc, que ajudam a identificar infecção atual, contato prévio com o vírus e resposta à vacinação.
- Hepatite C: geralmente investigada inicialmente pelo anti-HCV. Resultados reagentes precisam ser complementados por exames que identifiquem o RNA do vírus para determinar se existe infecção ativa.
Esses exames são importantes, mas não substituem a investigação de outras ISTs, como gonorreia e clamídia.
Exames de urina e secreções
A gonorreia e a clamídia podem ser identificadas por testes moleculares, geralmente realizados por técnicas de amplificação de ácidos nucleicos, como a PCR.
Dependendo da situação, esses exames podem utilizar amostras de urina ou material coletado da vagina, orofaringe (garganta) ou região anal/retal.
A escolha depende das características de cada pessoa e das regiões que tiveram exposição sexual.
Por que pode ser necessário coletar exames da garganta ou do reto?
Uma dúvida frequente é por que alguém precisaria fazer exames da garganta ou do reto se não apresenta sintomas nessas regiões.
Isso acontece porque infecções como gonorreia e clamídia podem acometer diferentes locais do corpo e frequentemente não provocam sintomas.
Por exemplo, uma pessoa que pratica sexo oral pode adquirir gonorreia na garganta. Nesse caso, um exame de urina pode ser negativo, mesmo que exista uma infecção na região da faringe.
O mesmo pode ocorrer com infecções retais.
Portanto, um resultado negativo na urina não significa necessariamente que não exista gonorreia ou clamídia em outra região do corpo.
Durante a avaliação, é importante conversar sobre as práticas sexuais para definir os locais apropriados de coleta. Isso permite uma investigação mais completa, sem solicitar exames desnecessários.
Quanto tempo depois de uma relação sexual devo fazer os exames?
O momento da coleta é tão importante quanto a escolha dos exames.
Após uma infecção, pode existir um intervalo até que os testes consigam identificá-la. Esse período é conhecido como janela diagnóstica.
A janela varia conforme a infecção e o método utilizado.
No caso do HIV, por exemplo, os exames laboratoriais de quarta geração, que pesquisam simultaneamente anticorpos e o antígeno p24, costumam detectar a infecção entre 18 e 45 dias após a exposição, quando não há interferência de medicamentos antirretrovirais.
Outros testes, especialmente aqueles que identificam apenas anticorpos, podem precisar de um intervalo maior.
Para sífilis, gonorreia e clamídia, também é necessário considerar o tempo desde a exposição e as características do teste.
Isso significa que um exame realizado muito precocemente pode apresentar resultado negativo mesmo quando houve transmissão.
Em algumas situações, vale a pena realizar uma avaliação inicial e programar uma nova coleta posteriormente.
Não é necessário esperar o término da janela diagnóstica para procurar atendimento. A avaliação precoce também permite identificar situações em que existem medidas de prevenção que precisam ser iniciadas rapidamente.
Tive uma relação sexual sem preservativo. Devo procurar atendimento imediatamente?
Em determinadas situações, sim.
Quando existe uma exposição com possibilidade de transmissão do HIV, pode haver indicação da profilaxia pós-exposição, conhecida como PEP.
A PEP utiliza medicamentos antirretrovirais para reduzir o risco de infecção e deve ser iniciada o mais rapidamente possível, no máximo até 72 horas após a exposição.
Também pode ser necessário avaliar medidas preventivas relacionadas à hepatite B, dependendo do histórico de vacinação e da situação da exposição.
Por isso, se a relação ocorreu recentemente e existe possibilidade de exposição ao HIV, é importante procurar um serviço de saúde imediatamente, sem aguardar o aparecimento de sintomas ou resultados de exames.
A PEP é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), inclusive para pessoas que habitualmente realizam seu acompanhamento médico na rede particular. Não é necessário ser paciente do SUS para procurar um serviço público e receber avaliação para PEP.
Preciso fazer exames para ISTs mesmo sem sintomas?
Sim. A ausência de sintomas não exclui a presença de uma infecção sexualmente transmissível.
Diversas ISTs, como clamídia, gonorreia, sífilis e HIV, podem permanecer assintomáticas por períodos prolongados. Por isso, não devemos esperar o surgimento de corrimentos, feridas, dor ou outras manifestações para realizar uma avaliação.
Recomenda-se que todas as pessoas com vida sexual ativa incluam a avaliação de saúde sexual em seus cuidados de rotina, pelo menos uma vez por ano. Nessa avaliação, é possível definir quais exames para ISTs estão indicados, considerando o histórico e as práticas sexuais de cada pessoa.
A frequência pode precisar ser maior em determinadas situações, como entre pessoas com múltiplas parcerias sexuais, histórico de ISTs ou que utilizam PrEP. Nesses casos, alguns exames podem ser recomendados a cada três ou seis meses.
Por outro lado, nem todas as ISTs precisam ser investigadas anualmente em todas as pessoas. A seleção dos exames deve ser individualizada.
O mais importante é que a testagem faça parte dos cuidados regulares de saúde, mesmo na ausência de sintomas.
Preciso pesquisar HPV e herpes em todos os check-ups?
Nem sempre.
Embora HPV e herpes sejam infecções sexualmente transmissíveis frequentes, sua investigação não funciona da mesma forma que a de outras ISTs.
No caso do HPV, não existe um exame de sangue recomendado para determinar se uma pessoa tem a infecção. Os exames para detecção do vírus são utilizados em situações específicas, especialmente no rastreamento do câncer do colo do útero.
Já no caso do herpes genital, a investigação costuma ser mais útil quando existem lesões ou sintomas sugestivos. Nessas circunstâncias, pode ser realizada a coleta de material da lesão para testes moleculares.
Exames de sangue para herpes não são recomendados indiscriminadamente para todas as pessoas sem sintomas, pois apresentam limitações de interpretação.
Portanto, solicitar o maior número possível de exames nem sempre representa uma investigação melhor.
Como o infectologista pode ajudar na investigação das ISTs?
A avaliação com infectologista permite definir quais exames são realmente necessários, considerando o histórico clínico, as práticas sexuais, a presença de sintomas, as exposições recentes e os resultados de testes anteriores.
Além de identificar possíveis infecções, a consulta pode incluir orientações sobre prevenção, vacinação, uso de PrEP e outras estratégias de redução do risco de transmissão.
Outro aspecto importante é a interpretação dos resultados. Um teste reagente nem sempre significa uma infecção ativa, assim como um resultado negativo pode precisar ser reavaliado dependendo do momento em que o exame foi realizado.
Investigar ISTs não significa simplesmente solicitar uma lista extensa de exames, mas escolher os testes adequados, nos locais corretos e no momento apropriado.
Se você deseja realizar uma avaliação para ISTs, esclarecer resultados de exames ou discutir estratégias de prevenção, é possível agendar uma consulta presencial em São Paulo ou por telemedicina.
Dr. Pedro Carvalho — Infectologista